Cinco pequenos contos inspirados em seis grandes escritores
Oh, Drugs! Thanks! - Hunter Thompson
Aguardo uma Guerra - Dostoievski
A Noiva e a Múmia-Allan Poe,Dante
O Curioso Caso de Augusto Ernestino- Scott Fitzgerald
Coletivo de Abutres - Homenagem a Bukowski
Queria não sentir aquilo.
Aquele asco mais uma vez rompendo as minhas entranhas e me causando uma náusea absurda, uma vontade de vomitar amarga e degenerativa.
Eu amo a arte… mas odeio os artistas e seus pretextinhos baratos para encher a cara e sair com a mulher dos outros .
Odeio a cara esnobe que eles fazem achando que determinam o tempo/espaço de todos os mundos paralelos que eles e só eles acreditam que existam."Nada existe seus estúpidos repugnantes !", e era isso que eu queria gritar bem alto pra eles ouvirem.
Aquele asco mais uma vez rompendo as minhas entranhas e me causando uma náusea absurda, uma vontade de vomitar amarga e degenerativa.
Eu amo a arte… mas odeio os artistas e seus pretextinhos baratos para encher a cara e sair com a mulher dos outros .
Odeio a cara esnobe que eles fazem achando que determinam o tempo/espaço de todos os mundos paralelos que eles e só eles acreditam que existam."Nada existe seus estúpidos repugnantes !", e era isso que eu queria gritar bem alto pra eles ouvirem.
Naquela noite foi assim que aconteceu...
Eles sentados em um bar com toalhas de pano asseadas e velas compondo a iluminação.Para mim era tão sujo e promiscuo quanto os botecos da zona do porto, aonde as putas desdentadas pagam boquetes no banheiro por 5 reais.Quem eles pensam que são? Eles e aquelas cadelas emperequetadas com a ultima marca da moda estampada na bunda, cuja a única especialização é servir de estofo para cama daqueles imundos.Idiotas mesquinhos que tocam,cantam ou "produzem".Todos deste mundo nefasto e envenenado cantam,dançam,escrevem,atuam.Rebolam ou "produzem"...Se acham.
Queria amassar a cara de todos eles, assim mesmo como estão vestidos,com o cabelo propositalmente desarrumado pela bagatela de 80 reais que o cabeleireiro cobrou. Assim mesmo como estão sentados, bebendo tranquilamente seus chopes no Leblon e jurando que no 7°dia, ao invés de descansar, Deus se pôs a criá-los.
Queria amassar a cara de todos eles, assim mesmo como estão vestidos,com o cabelo propositalmente desarrumado pela bagatela de 80 reais que o cabeleireiro cobrou. Assim mesmo como estão sentados, bebendo tranquilamente seus chopes no Leblon e jurando que no 7°dia, ao invés de descansar, Deus se pôs a criá-los.
Pensei em investir o carro contra eles, subir deliberadamente a calçada sem dó nem piedade.Acabar ali mesmo com a raça de uma meia duzia de babacas nefastos e disseminadores da merda enlatada que eles sonham levar aos sundances e fuck trends de bosta que idolatram como à Deuses num altar cheio de bezerros imolados. Seria o grande feito do mês e seria com prazer riscado do meu check list de afazeres semanais,abaixo de lavar os sapatos ou desmarcar o dentista.
Mas eu não podia faze-lo.E acreditem não tem nada a ver com ética ou piedade.Fodam-se suas famílias inconsoláveis enquanto eles estivessem sorvendo todos os tubos de soro dos hospitais nãoseioque d'oors da zona sul.O fato é que na minha infinidade ameaçadora de reveses eu estava a pé, e ao me aproximar não tive coragem nem de olha-los nos olhos....Apenas balancei a cabeça e resmunguei um cínico e recalcado "beleza ?",do qual recebi um indiferente "e aí" como resposta de uma ou duas vozes que soaram baixo naquele coletivo de abutres.
*
Oh,Drugs, Thanks! - Homenagem a Hunter Thompson
- Prólogo de uma manhã em Hell's Kitchen
Depois que li "A grande caça aos tubarões " do Hunter Thompson um espírito obsessor encostou em mim.
Mal terminei a ultima pagina e já estava tendo idéias mirabolantes, devaneios absurdamente narcóticos.
Corri pro banco e ao constatar que devia U$1200 tratei logo de sacar os últimos U$200 que o banco me oferecia à juros módicos para gastar tudo de uma vez,de preferência com entorpecentes .
Comprar drogas não é um problema para mim em Nova Iorque.Eu tenho amigos influentes.Amigos como Alejandro Diniz.Um escritor latino brilhante e viciado que vive em Hell's Kitchen. Alejandro já me levou na vilinha dos travestis.Um antro infestado de desdentados e crackudos. Alejandro me disse que se voce pagar U$2 a mais pode fumar ,cheirar,fazer lá mesmo,no beco.Os traficantes nem se importam.Mas tem que pagar e eles dão preferência para clientes antigos.Cliente antigo pode levar até a namorada e pelos mesmos U$2 dar uns amassos nela de cabeça feita no bequinho...éca.
Com os U$ 200 que tirei no banco, jurando para mim mesma que nunca iria pagá-los (não mais do que já tenho pago de juros e correções mês após mês), resolvi comprar uns U$ 100 em etílicos. Assim chegaria na casa de meu amigo calibrada.Poderíamos beber e buscar drogas numa boa. Passei no supermercado (não antes de ir em casa dar um" tapa" e pegar a sacola de compras) e comprei duas garrafas de um vinho frances vagabundo em promoção por 15 pratas cada, uma garrafa de saquê que me levou bons U$ 30 e o resto torrei em cerveja… devo ter comprado umas 20, talvez 30 latas.
Dei uns trocados e um guri que fazia biscates na porta do supermercado me ajudou a levar até a porta do prédio do Alejandro.
O porteiro me cumprimentou com cara de poucos amigos. Não é dele a culpa. A culpa é do meu amigo que da ordens expressas para que não lhe perturbem quando chega em casa depois de uma maratona de 20 ou 30 horas bebendo. Comigo até que o porteiro é bonzinho, deve pensar que eu sou da família ou vai ver é porque ele sempre me vê alinhada e de batom. Talvez isso imponha um certo respeito. É,comigo ele é legal.Também, aquele prédio não é nenhum apart hotel em Manhattan. Meia boca,tipo o meu no Brooklyn, só que em Hell's Kitchen.
Chegando lá eis minha decepção ...ninguém em casa e minha "vibe" hunter thompsoniana alcançava altitudes absurdamente ansiosas a ponto de tremerem minhas mãos.
Eis que surge uma velha franzina e me pergunta uma série de coisas. O ponto culminante é se eu conheço "os rapazes".
A estas alturas eu já estava ensandecida com aquela mancha de molho na gola da tal senhora que vestia alguma espécie de chambre.
Pois ali mesmo eu pedi emprestado um sacarrolhas e uma caneta.Papel eu tinha na bolsa e tudo se resolveu num piscar de olhos.Enquanto esperava Alejandro bebi as duas garrafas de vinho e escrevi alguns bilhetes.
Quando peguei no sono 3 horas depois, o camarada abriu a porta e tentou me convencer que acabara de chegar, como se eu não estivesse sóbria o suficiente para saber que ele esteve o tempo todo em casa.
Me recompus, fumamos alguns cigarros,tomamos algumas cervejas e esqueci de devolver a caneta da vizinha. O saca rolhas era do Alejandro mesmo. Parece que o filho da velha é pinguço,pediu o saca rolhas emprestado para o meu amigo uns dias antes
Não usamos drogas,não estava afinal um bom dia para isso. Talvez nunca esteja exatamente,se é que vocês me entendem.
II
Saímos para dar uma volta no sol, lúcidos e serenos.Durante o passeio decidimos largar a vida errante.Eram várias as opções.O exercito da salvação, as igrejas que te obrigam a esmolar,o jornalismo...Conheci o Alejandro na faculdade de jornalismo 8 anos atras quando ele veio para os Eua estudar. Trabalhou em alguns jornais e durante anos cobriu as corridas de cavalo no hipódromo. Quando perdeu o emprego por causa da bebida veio morar em Hell's Kitchen.Desde então vive a sua fase mais auto destrutiva. É também a sua fase mais criativa com a literatura.Dotado de uma sagacidade autoral, Hell's Kitchen parece ter dado corpo definitivo à sua escrita. Escreve os contos menos reticentes, os roteiros mais redondos,as poesias mais abismais e belas. No entanto tenho a impressão que ninguém lê em Nova Iorque. Nem nos Eua. Talvez ninguém leia no mundo.
Eu sempre fui uma escritora medíocre, conformista e degenerada. Ao contrario de Alejandro nem terminei o jornalismo. Quando cheguei em Nova Iorque passei os 2 primeiros anos tentando me lançar como poeta e dramaturga. Doce ilusão… Menos ainda na América do Tio Sam. Fui triturada,devidamente digladiada pelos preços e pela inflação e tive que me resignar em um emprego monótono e burocrático para não passar fome. Escrevia para as paredes e a arte passava a ser mais um pretexto pra encher a cara nos bares do que uma oportunidade profissional ou uma grande descoberta íntima de potência.
Todos falam que devemos perseguir os sonhos. Foco, objetivo, buscar a nossa missão, encontrar o nosso caminho… para mim são engôdos ridículos para engambelar os pamonhas.
Criar um sonho é mole,eu mesma crio vários antes de dormir. Quero ver alimentar o dragão.Dar de comer a esta draga que vive no peito, e quer a todo instante mais e mais sacrifícios de virgens, é que são elas.
III
"Os desejos queimam e queimam enquanto lançam na tapeçaria persa da existência,as cinzas tórridas das suas paixões."
Esta frase brilhante era do Alejandro. Ela pode até parecer meio cafona mas o importante é que ele sabia que este blablablá de moda, de militância, de trocar de namorada,de carro, emprego ou celular,era tudo a mesma bosta. A lenga lenga enlatada dos políticos para conseguir votos, sempre aliciados por grandes empresas que compram nossas almas na promoção do Walmart
Por isso ele se drogava. Para não ter que dançar a dança do diabo de cara. Era menos doloroso pra ele e quem pode julgar um pobre indivíduo de preservar a sua alma, à sua maneira?
Beber e se drogar era para Alejandro uma maneira de se manter lúcido frente ao aparente caos imposto pelos homens à tão perfeita sincronia dos acontecimentos. Como observou Borges (sobre o fato de três dos diretores da Biblioteca Nacional de Buenos Aires serem cegos), o mundo não é caótico.Ele tem uma métrica própria,uma espécie de código de honra secreto.
Pois foi este código de honra que me alçou à companhia de Alejandro Diniz.
Na faculdade éramos muito chegados e ,antes de eu resolver largar os estudos,costumávamos cobrir juntos algumas matérias para o jornal dos universitários. Depois de formado Alejandro me chamou eventualmente para ajudá-lo em uma ou outra matéria que o contratavam.
Lembro-me de uma vez que ele conseguiu um patrocínio e fomos para Los Angeles desvendar os mistérios da industria pornô.Tínhamos culpa católica demais para suportar aquilo.Além do que era constrangedor, afinal éramos um casal de amigos, sem nenhuma pretensão sexual (o que eu secretamente supunha ser uma resolução dele, pois me pegava constantemente tentando seduzi-lo).
Como de praxe, gastamos todos os honorários em uísque e bolinhas, e mais uma vez demos um clássico calote no hotel em nome da Revista Playboy. Para Alejandro era uma equação simples: se os magnatas tarados do entretenimento masculino tinham o direito de foder com a moral e os bons costumes da América e ainda por a culpa nos latinos,nós deveríamos ser perdoados por uns arrombos no bar do hotel.
Alejandro me ensinou que a simplicidade é a alma do negócio. Deve-se escrever com o que se tem a mão, amar como quem escolhe o prato do dia no cardápio, e se entorpecer sempre.
O que restou de Los Angeles foram contas de gás, luz e aluguel atrasadas na escrivaninha, além de umas calcinhas comestíveis que eu, lógico, com minha moral falsamente ilibada,nunca terei coragem de usar antes do 3° ou 4° drink.
O que restou de Los Angeles foram contas de gás, luz e aluguel atrasadas na escrivaninha, além de umas calcinhas comestíveis que eu, lógico, com minha moral falsamente ilibada,nunca terei coragem de usar antes do 3° ou 4° drink.
Aguardo uma Guerra -Homenagem a Dostoievski
Treinei anos e anos pra guerra.
A guerra nunca chegou.Treinei anos e anos mesmo não sendo homem tampouco tendo me alistado às forças armadas.
Esperei solenemente como esperam os candelabros trabalhados a ouro a sua vez de iluminarem as mais lúgubres antes salas de castelos medievais.
Com uma satisfação oculta, quase insalubre, eu contabilizava as horas que me poriam à prova.
Ao invés disso só a mediocridade dos dias.
Um cotidiano nefasto contaminado por pequenas batalhas às quais eu me envergonhava de lutar.
Nunca compreendia exatamente de onde nascia toda aquela putaria de burocracias,injustiças e indiferenças que só se disfarçavam de felicidade quando eu me embriagava e continuava a não entender porra nenhuma tendo ainda como ágio uma ressaca infernal.
Mercenários infames disfarçados de patrões, empresários bestiais,políticos corruptos,uma corja de zumbis compradores e a mais diversa gama de falsos amores que traziam em seu cerne de tudo, menos aceitação e solidariedade.
Todo mundo quer algo para si, eu só queria uma guerra grandiosa,como os grandes combates que eu via nos filmes.Um grande conflito aonde eu poderia salvar mais do que ser salva.
Na contramão de todas as oportunidades óbvias eu continuava serena esperando um momento que definitivamente me diferenciasse dos primatas mais próximos da escala evolutiva humana...mas nada, infelizmente só os desgraçados com duvidas idiotas que nunca seriam respondidas nem pela ciência nem pela religião ou com verdades desvairadas que traziam em si mesmas a fraudulência das certezas.
Cansada da minha resistência inócua à todas as coisas passei a reparar que a vida é um jogo de cartas marcadas e recorrentemente observava que aqueles que sabiam usar as mangas para esconde-las se davam melhor dos que os que jogavam limpo.Tudo isso me consumia e ainda que não me afastasse do decoro nas ações, me lançava ao marasmo absoluto das mesmas.
Passei com o tempo de uma bravura indócil para uma apatia submissa, o máximo que eu me permitia vez que outra era um cinismo incrédulo até dele mesmo.
Fingia gostar de ir à festas, fingia me aprimorar com estudos e lições, fingia ser boa e as vezes fingia ser má, para que não me extorquissem descaradamente o que me restava de dignidade.
Até amar eu fingia .Amar eu fingia para mim mesma.
*
A Noiva e a Múmia -Homenagem a Allan Poe e Dante
PRIMEIRO ATO: no Purgatório: Noiva suicida adormecida
Múmia traidora adormecida
Anjo acordando-os
Noiva acorda
-Se de alguma maneira
Por ter eu cometido asneira
Fui aqui enclausurada;
Redimida,de joelhos,desonrada,aqui estou
Privei-me da vida
Para livrar-me da solidão
E,eis que,
Era isso mesmo que me guardava a eternidade
Múmia já acordada observando a noiva
-Entendo sua ansiedade.
Esse anexo eterno,
Que em nada me lembra o
Útero materno
Me entediou antes do 9 (nono) mês
E se pudesse outra vez
Nas pias oraculares
Onde lavam suas almas,os pecadores
Esfregar novamente minha alma encardida
Não teria hoje esta aura abatida
Pois usaria mais sabão.
Anjo impaciente
-Como és chorão !
Que alma vã!
Não te basta o frescor da manhã?
Tens que estar sempre a beijar?
Noiva contemplativa
-Eu sem beijo
Sou criança sem lar
Taco sem bilhar
Gente sem ar…
Anjo irônico
-Noiva abandonada no altar!
Múmia consolando a noiva e ralhando com o anjo
-Coitadinha!
Que falta de cavalheirismo.
Não dás aos sentimentos sincronismo?
E afinal quem és tu?Anjo caído, redimido,
Que aqui se perdeu?
Anjo respondendo, um tanto nostálgico
-Quem dera alguns destes fosse eu.
Sou anjo cupido,em mais uma enfadonha missão,vim livrá-los da tal solidão,já que não lhes contenta o sossego do purgatório.
Noiva
-Como assim? Vais me arrumar um noivo?
Múmia
-Vais me embalsamar com mais alguém?
Anjo indignado
-Não doidivanas!Vou mandá-los de volta a tal humanidade o qual parecem se orgulhar de terem feito parte
Noiva apavorada
-O quê? Não viestes nos levar ao paraíso?
Anjo debochado
-Imagine! Uma noiva suicida e uma múmia traidora no paraíso.Que despropósito!
Noiva curiosa voltando-se para a múmia
- Mas a propósito,quem traíste?
Anjo fazendo intriga
-Conte a ela!
Múmia indignadíssima com as mãos em punho
-Ora seu…
Anjo contendo os ânimos
-Acalmem-se! Não se esqueçam que trabalho para Ele (Apontando para o céu)
Múmia recompondo-se
-Traí sim.Deitei-me com a mulher de um patrício por anos.Sei bem de meus desenganos,mas foi tudo por amor.Pior és tu anjo, que nem tens sexo.
Mas ...e você,minha cara jovem...O que aconteceu?Por que ceifaste assim a própria vida?
Noiva angustiada e apática
-Fui mal amada e, deprimida,não resisti a lâmina do punhal.
Múmia lamentando
- Que triste final !
Anjo irritado
- Quanta ladainha! Logo ,logo estarão a comer bala Juquinha-a única coisa que, creio eu,torna a Terra menos medonha.Também me agrada o queijo de Bolonha.
Múmia boquiaberta
- Esse anjo está insano!
Anjo com ar de desprezo
-Que ludibrio engano! E que frase redundante.Mesmo anjo sendo infante,aposentadoria ele tem.E a minha começa agora.É chegada a hora de irem embora.
Anjo toca um grande sino e neste momento um ônibus estelar se aproxima.
Noiva resignada e até agradecida entra no ônibus junto com a múmia
-Adeus anjo, obrigada!
O onibus parte e desaparece no universo etéreo enquanto o anjo grita:
-Não se esquecem, o amor é propagado tal qual vírus da gripe!!
Inconstância em palavra,
Sabe lá de onde veio
Faminto, latente,nem sente,que avassala
E a gente sentado na sala...
E vai tudo rio abaixo: pororóca, furacão,
Vai à bordo um coração agora náufrago,
Sem porto seguro.
E eu te juro,que jurava,que não ia me envolver
Fosse em nome de prazer
Prazer, para mim, seria agora estar só.
Sem angústia deslavada rindo de mim
Agonia maior que a ânsia de querer guardar o mundo embaixo da cama
Estômago enrolado,retórica profana
Problemas com o espelho.
E eu que achei que amar fosse folhear a celulose na estante coberta de ácaro.
Agora o espirro de alergia pungente respinga a saliva contaminada no seu rosto,
E isso basta
Para lacrar nosso pacto bobo,embriagado,de papo furado,embargado em canção
Coisas vãs...beijo,jantinha,toalha.
Pouco importa a sua erudição, se eu pudesse espancar meu coração
Mas não dá amor, que bom!
Não dá,não dá,não dá.............
SEGUNDO ATO: No interior de uma farmácia na Terra : um homem
uma mulher
o atendente
O homem e a mulher se aproximam do balcão e pedem juntos ao atendente:
-Por favor,eu gostaria…
Homem cede o lugar à mulher:
-A senhora , tenha bondade...
Mulher mau humorada:
-Me veja 2 caixas de Prozac, por favor.Aqui está a receita...
Homem observa a mulher e arrisca, sem entender exatamente porque ,uma pergunta :
- A senhora sofre de depressão?
Mulher ofendida:
-Não lhe interessa. E é senhorita.
Homem não consegue se segurar e sem querer espirra quase em cima da mulher:
-Aaaatchiiiiiiim!!
Homem desconcertado:
-Oh que deselegância a minha, a senhorita me desculpe.Esta gripe horrível. Eu …
Mulher muda repentinamente de humor passando do aspecto melancólico e colérico para o de ternura:
-Não foi nada, me desculpe você pela grosseria.Eu não ando em uma fase muito boa…
Homem :
-Imagine! Eu que fui intrometido.
Mulher:
-Engraçado! A gente não se conhece de algum lugar?
Homem responde e se apresenta:
-Pois é, também tive esta impressão,por isso tentava puxar papo..
Edgard Allamistakeo,professor de História antinga, doutor em arqueologia,muito prazer!
Mulher contemplativa :
-Ah! Beatriz Alighieri,agente nupcial...prazer é todo meu.
*
O Curioso Caso de Augusto Ernestino-Homenagem a Scott Fitzgerald
Nasceu na Bahia em 1920 o Sr Augusto dos Santos Ernestino. Dono de uma saúde invejável e de uma sorte intrigante, Augusto, por acasos do destino, mudou-se para New Orleans em 1940 já com 20 anos de idade.Foi atrás dos bares de jazz e das doses de gim e ópio.
Era forte e parecia indestrutível como um Hemingway maldito,negão e bahiano .Mas tinha 20 anos e nascera próximo ao Pelourinho em 1920,na era de ouro da geração perdida,no pós guerra. Ele mesmo fingia ter lutado no front. Já em New Orleans aderira ao nome de Scott Fitzgerald e esquecera-se da sua personalidade tipicamente bahiana, de sua malemolência brasileira.Scott Fitzgerald tornara-se um guy fino, homem de grandes bailes, de chás e de salões.Até dos guetos com o tempo se esquecera...não ia mais nem aos vaudevilles,considerados agora por ele diversão da "escória".
O dr. Fitzgerald como era tratado agora por todos,passava as noites nos cafés chiques da cidade e era alvo de interesse das moças de boa família da Luisiana. Recebera uma vez uma carta telegrafada de Francisca da Piedade, sua antiga namorada .Pediu de modo calculado e sereno ao telegrafista que a jogasse fora e que não o importunasse mais com telegramas do Brasil.Seu coração esfriou e à medida que seu coração esfriava e ele ia se esquecendo de suas origens, sua cor ia ficando mais clara.
Por duas vezes também os antigos amigos que o receberam em New Orleans o procuraram, mas Fitzgerald lhes ofereceu dinheiro para que não voltassem mais à sua casa.Achava-os feios e maltrapilhos.Ao contrario dele que,assim pensava,tornava-se a cada dia mais e mais bonito.Mais e mais respeitável pela parte da sociedade que valia a pena conhecer e participar.
Para impressionar ainda mais as moças da cidade Fitzgerald comprou um automóvel.Ninguém sabia exatamente de onde viera todo seu dinheiro...alguns diziam que ele era um jogador de dados sortudo que investira por anos tudo que ganhara.Outros não especulavam nada, resignavam-se em aceitar suas champanhas, e o adulavam como a um rei.Cada dia mais branco chegou por fim à uma palidez inexata, e estava quase para sumir quando um antigo conhecido dos tempos de jazz o procurou.
- What happened Ernestino?
-Me sinto fraco John,bad, flaquito...acho que tem a ver com esta cor que a princípio eu achava very good, mas agora preferiria meu black power e minha nega Chiquinha.
-Take it easy man,take it easy…
O homem foi embora fazendo promessas de voltar e ajudar o amigo que já tinha passado por todos os médicos do condado e nada de enfermidades encontravam nele.Somente aquele desfalecimento de cor que parecia acompanhar um desfalecimento dos sentidos,uma desolação sem volta para com a vida.
Dali a uma semana retornou seu amigo John.
Fitzgerald, a estas alturas, já exigia que o chamassem de Ernestino, porque cismara que todas as ambições desmedidas e iniquidades que estava a cometer, lhe atraíram aquela má sorte, aquela palidez esquálida e impessoal.O homem estava na capa do Batman, pesava menos que 50 kilos e já quase desfalecendo definitivamente,ouviu os gritos do ultimo empregado que não o abandonara:
Fitzgerald, a estas alturas, já exigia que o chamassem de Ernestino, porque cismara que todas as ambições desmedidas e iniquidades que estava a cometer, lhe atraíram aquela má sorte, aquela palidez esquálida e impessoal.O homem estava na capa do Batman, pesava menos que 50 kilos e já quase desfalecendo definitivamente,ouviu os gritos do ultimo empregado que não o abandonara:
"-É ele ! Seu amigo John,Mr Ernestino,ele lhe trouxe a cura ! "
Em segundos invadiu o quarto uma trupe animada e barulhenta de homens e mulheres com instrumentos de todo tipo.Ali mesmo em frente ao moribundo começaram a tocar um jazz improvisado divino,blue notes sincopadas,tudo perfeito.Os metais em harmonia e a voz de uma diva que ressoava pelo aposento .
Ernestino perplexo com a beleza da musica e feliz por ver todos os antigos amigos ali reunidos naquela algazarra inusitada e generosa,deu um último suspiro e morreu com cara de enfermo, mas feliz.
A cantoria se seguiu pelos 3 dias seguintes,beberam ao morto mais e mais uma garrafa...
Damas de moral duvidosa chegavam com coroas adornadas de flores do campo, feitas por elas mesmas.Malandros dos guetos e aprendizes de marinheiros se juntavam ao velório que mais parecia um cabaret inflamado e inquieto,cheio de bons bebedores,todos homens de índole abalada.Conta-se que até uma comitiva da Bahia apareceu, pessoas ainda mais simples e pitorescas do que as de New Orleans.E os sons se confundiam num misto de batuque pagão com acordes de metais clássicos de bandas marciais, polirritmados ao estilo ragtime.
Damas de moral duvidosa chegavam com coroas adornadas de flores do campo, feitas por elas mesmas.Malandros dos guetos e aprendizes de marinheiros se juntavam ao velório que mais parecia um cabaret inflamado e inquieto,cheio de bons bebedores,todos homens de índole abalada.Conta-se que até uma comitiva da Bahia apareceu, pessoas ainda mais simples e pitorescas do que as de New Orleans.E os sons se confundiam num misto de batuque pagão com acordes de metais clássicos de bandas marciais, polirritmados ao estilo ragtime.
Nenhum homem ou mulher de sociedade acompanhara o velório, tampouco o cortejo que se deu as 9 da manhã do 3° dia de festeres.O corpo foi enterrado já entrando em decomposição numa vala comun da prefeitura.Na placa simples escrita sobre a tumba constava :
"Augusto Ernestino, o curioso homem que embranqueceu e se arrependeu,deixando à todos uma lição de vida".
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